• Olhar do Palhaço

Desabafos de Palhaço

Atualizado: Ago 5

Há muito que a arte da palhaçaria tem seus reveses. Em tempos atuais, com o advento da internet, a aceleração das oportunidades cresceu. O que dizer dos oportunistas? Numa reflexão sobre o presente e o futuro desta arte tão constante em nossas vidas, Bruno questiona a falta de estudo e informação. Justamente na era onde é mais valorizada.


Como se diz, "amor só não basta".


Vale a pena conferir este texto cheio de pessoalidade e reflexão.


Nos últimos dias tenho visto algumas coisas que me assombram. Depois de muito pensar estou colocando aqui nesta postagem. Não é um compartilhamento, são apenas sentimentos, que poderão ser compartilhados ou reconhecidos por mais pessoas. Sei que isso já acontece há muito tempo em todas as áreas de atuação e como artista, palhaço, voluntário ou mesmo como ser humano, tenho revisitado meus valores e crenças.


Quem é o palhaço? O que é o palhaço? Quando alguém é palhaço? Quão lindo pode ser o ser “palhaço de hospital”? Como olhar para essa figura milenar, esse arquétipo tão importante na arte, e mais que isso, na história humana?


Aprendi que em tudo o que vamos fazer, temos de colocar amor. Então, levar amor deveria ser a tudo o que fazemos. Vai desde fritar um ovo até dar a vida a alguém. Para fritar um ovo, você precisa, primeiro aprender como se faz. Depois, fazendo isto com amor vai ficando cada dia melhor. Assim, do mesmo modo é criar filhos, empreender, ter relações afetivas… Sempre você tem de buscar ser melhor que era ontem, com o trabalho incessante de seu suor e estudo. Logo, o amor é sim o que nos move a nos capacitar, a ser cada dia melhor.


Por que com o Palhaço seria diferente? Se o palhaço é nossa essência, porque nossa essência pode ser de qualquer jeito?


Vemos muitas iniciativas lindas de trabalho de palhaço dentro de hospitais que, infelizmente, acreditam em qualquer falácia. Nessa época de pandemia, onde temos tudo na internet, não podemos deixar de lembrar a quantidade de dejetos lançados na rede, onde pessoas falam equívocos grotescos, indo totalmente contra toda a história, o arquétipo (aliás, arquétipo é uma palavra bonita, daí tudo vira um arquétipo, é só assistir um cursinho, ler um livro e aprender a falar palavras difíceis). Ainda pior, contando uma versão errônea de inverdades na internet, jurando ser a versão correta de algo que a pessoa nem mesmo conhece.


Temos muitos, mas muitos artigos bem-intencionados, diversos livros que demonstram quem é essa figura. Alguns mestres com real conhecimento estão disponibilizando materiais gratuitos na internet enquanto vemos o universo de pessoas mal-intencionadas passando informações ruins. Ainda aplaudimos, ou até pior, estamos caindo no “conto do vigário” e fazendo um “curso preparatório de palhacinho de hospital” que “forma” o palhaço em 3 horas. Para piorar, on-line! Tudo isto por uma pequena contribuição. Sempre achei estranhos os cursos de final de semana que prometiam maravilhas, agora o milagre ganhou a velocidade de fibra ótica.


Não tenho problema de as pessoas irem contra o que penso, pelo contrário. É difícil aceitar alguém que não sabe o que diz, ditar regras a quem quer aprender. Acho lindo o trabalho do palhaço no hospital. Comecei dentro do hospital e me orgulho desse trabalho, tenho uma dívida eterna de gratidão por tudo o que aprendi e aprendo até hoje lá dentro. Por isso, me incomoda tanto o fato de algumas pessoas usarem o amor de quem quer fazer a diferença para lucrar em cima de cursos furados, ou com falação sem sentido. Há muitos cursos espetaculares na internet, grátis, pagos, workshop, masterclass, palhaços renomados, palhaços verdadeiros, palhaços de circo, de palco, festa, e até palhaço voluntário que leva a sério ao utilizar da figura de ofício de muitos e a trata com respeito. Aliás, não esqueçamos, qualquer desses citados antes de tudo, tem de ser palhaço, assim como não existe um cardiologista sem ser medico, também não existe palhaço de hospital, palhaço de circo e todos os outros, sem ser palhaço. É uma profissão que não exige formação universitária profissional, mas pelo menos, exige respeito, estudo e principalmente conteúdo de quem tira as suas máscaras colocando o nariz mais famoso do mundo. Agora, querer ensinar pessoas, grupos, ou afins, sem nem conhecer realmente o conteúdo, é um desrespeito a arte, ao estudo e ao movimento que envolve toda a pesquisa do palhaço. É vender mentiras, é trapacear e enganar pessoas tão bem intencionadas.


Então, você me pergunta: "O que importa não é o amor?"


O amor importa, e quem ama cuida. Quem ama, quer oferecer a pessoa amada (nesse caso o público, pacientes e afins) o melhor que tem, não restos de um prato vazio. Quer oferecer a graça, com graciosidade, doar qualidade e não quantidade, algo que somente o estudo pode oferecer.


"Mas, o palhacinho de hospital é diferente, ele leva amor a hora que entra no hospital".


Bem, neste caso seria melhor estudar a história do palhaço. Ele não é tão bonzinho como pensam. Além do que neste caso, muitos levam o EGO disfarçado de amor, vale postar fotos, isso quando não levam a GANÂNCIA para vender cursos.


Não deixemos a história de lado, o estudo de lado, é AMOR, mas tbem é ARTE, e não existe ARTE feita de qualquer jeito. E olha a que ponto chegamos que pra falar de amor ou fazer algo humanitário precisa por uma máscara?


Aí você me pergunta, "Mas, o palhaço não tem que estar vazio?"


Sim, e estudando o que é esse vazio vai entender que não é vazio de técnicas e conhecimento. Aliás, conhecimento nunca é demais. Enquanto os antigos artistas tinham que rodar o mundo pra aprender, nós só precisamos procurar no Google e usar o bom senso. E, por favor, o vazio é um espaço bem cheio!


Pior ainda é ver malandro colocar na internet que quem vai para o hospital não é um palhaço qualquer, é um DOUTOR PALHAÇO, colocando esses artistas sensacionais da arte do palhaço que não é DOUTOR, como se fosse algo menor, e isso é mais uma inverdade grotesca.


Amigos, desculpem o desabafo, mas palhaço é arte, é estudo, é coisa séria, essência, eu, mas não é pequeno, é grande, é a sua descoberta e foi a de muitos, não vamos nos deixar enganar, vamos ficar atentos e principalmente se posicionar quanto a isso.

Quem quer descobrir o palhaço preciso no mínimo descobrir a si mesmo, não há outro caminho. Não dá pra exigir menos que isso.

Estudante da arte e da linguagem do palhaço há doze anos, Bruno Raphael Madalozo Santos é ator e palhaço, formado pela Escola do Ator Cômico (Curitiba/PR) entre outros artistas formadores.


Empreendedor social e co-fundador da Organização Doutores Palhaços SOS Alegria (Ponta Grossa/PR) onde atua na capacitação artística do elenco para atuação no ambiente hospitalar e espetáculos teatrais.


Bruno também é direitor na "RA - Arte e Humanização" e compõe o elenco da "Cia. Batumô".


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